4.12.09

A morte de Leila Lopes: 2º ato

"A morte de Leila Lopes". Esse foi o título de uma postagem que entrou no ar em Mondo Cane no dia 16 de julho deste ano. O blog não tem poderes premonitórios. Estava apenas se referindo ao fim da carreira pornô de Leila Lopes, cuja personagem é assassinada no último filme de uma trilogia produzida pela Brasileirinhas com a direção de J. Gaspar.

No dia 12 de maio de 2008, estive na festa de lançamento do primeiro filme de Leila Lopes, mas não tive nenhum interesse em entrevistá-la. Além de falar groselha, Leila não tinha um corpo interessante, era muito esquálida como essas modelos anoréxicas. Preferi papear com Cinthia Santos, que também havia sido contratada pela Brasileirinhas na mesma época e hoje é considerada uma das melhores atrizes de sexo explícito da atualidade.

Mais de um ano depois do debute de Leila Lopes no mundo da pornografia e quase quatro meses depois de Mondo Cane anunciar a morte da personagem safadinha dela, acabei indo cobrir o suicídio da atriz na madrugada de ontem. Uma fonte policial avisou alguns repórteres sobre o ocorrido. Em minutos, muitos jornalistas se concentraram em frente ao prédio da atriz em busca de informações.

Ainda de madrugada, ficamos sabendo do prato de comida com vestígios de "chumbinho" (veneno de rato) encontrado no apartamento. Um martelo, que teria sido usado para amassar o "chumbinho", foi apreendido por peritos no local. Também descobrimos sobre as cartas de despedida, mas naquele momento não deu para saber sobre o conteúdo delas. A fonte policial não tinha como lê-las na frente de outros policiais, pois acabaria se revelando.

Nesse momento, todos já sabem mais detalhes do caso por causa da ampla repercussão em sites e programas de televisão. Logo nas primeiras horas da manhã, o mano Fausto ligou-me para saber detalhes do suicídio. Talvez preocupado caso algum leitor não entendesse o motivo de eu ter escrito no primeiro post "A morte de Leila Lopes" que ele tinha motivos para comemorar o fato (no caso, o ficcional).

Até ontem de manhã, o post de Mondo Cane era um dos primeiros que apareciam no Google para quem fizesse uma pesquisa com as palavras "morte" e "Leila Lopes". Horas mais tarde o post desapareceu das primeiras páginas do Google após o humorista Rafinha Bastos, do CQC, fazer piada com a morte da atriz em seu Twitter e deixar milhares de internautas indignados.

28.11.09

Entrevista histórica 4: Walter Gabarron

Mondo Cane publica hoje a quarta e última parte da entrevista com o ator Walter Gabarron, um dos mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Veja também a primeira, a segunda e a terceira partes do bate-papo entre Gabarron e o escriba deste blog, que aconteceu no Teatro Orion, na Rua Aurora, República, região central de São Paulo, no começo de 1997. Na época da entrevista Walter estava prestes a completar 40 anos. Um câncer raro (Linfoma de Hodgkin) tirou a vida dele em 2005, aos 47 anos. Uma das últimas matérias feitas com Gabarron saiu na revista Isto É em outubro de 1996, de onde foi retirada a foto ao lado. Veja essa matéria clicando aqui.

Você encerrou suas atividades como ator pornô quando?
Em 1995.

Depois de dois anos sem atuar, você sente vontade de retornar à carreira, esquecendo o lado financeiro? Ainda sente vocação para a coisa?
Como ator sim. De repente montar uma peça de teatro ou mesmo fazer um filme normal. Mas sem sexo explícito.

Você já filmou com o José Mojica Marins?
Já. Filmei o "48 Horas de Sexo Ardente" e a "Menina do Sexo Diabólico", que não foi direção dele, mas ele participou.

E nos filmes do Mojica que não eram de sexo explícito?
Eu participei de um antigo, que passou recentemente na TV (Bandeirantes), "Perversão". Mas era uma coisa bem pequena, papelzinho pequenininho, pois eu estava começando. Mas o Mojica é uma pessoa legal.

E como era o trabalho com o Mojica? Ele era muito exigente?
O Mojica é uma criança. É super amigo, super legal. Aquela ideia de diabólico não existe, é só fachada, é imagem. Ele é uma pessoa normal.

Você é dono do Teatro Orion ou trabalha aqui?
Sou funcionário. Eu fazia erótico. Entrei aqui em 1992. Antes disso, trabalhei no Teatro Márcia Ferro, em vários teatros. Vim para cá em 92, na época era comédia erótica. Era um trabalho de ator e juntava o sexo explícito. Era um complemento. Depois o público perdeu vontade de assistir peça, só queriam putaria mesmo. Aí mudou de dono e montaram striptease com sexo explícito. Continuei, saí e fiquei um ano fora. Voltei, tava só no show e no sexo explícito. Fiz novamente. Em agosto do ano passado, a Prefeitura, a polícia, não entendi direito até agora, cortaram o sexo explícito. Aí eu fiquei só coordenando o show (desde 1995, quando parou de atuar como ator pornô).

E o que alegaram para acabar com os shows de sexo explícito?
Pelo que eu sei, não tenho certeza, alegaram que é atentado ao pudor. Que mostrar o pênis em cena é mostrar objeto obsceno. Acharam que é imoral. Baseado nisso, eles cortaram (o espetáculo, não o pênis).

Nesta semana, a atriz caribenha Jasmin St Claire visitou o Brasil. Ela transou com 300 homens em um dia durante a gravação de um filme. Alguma atriz brasileira já tentou alguma ousadia parecida?
Trezentas relações em dez horas eu acho absurdo, impossível. Isso é papo, não existe isso. Agora até 20 por dia eu fazia no teatro Studio, na época da inauguração. Eram cinco sessões, em cada uma dela tinha quatro cenas de sexo explícito. Então eram 20 por dia, em seis ou oito horas. Mas 300 eu acho mentira.

E quais as melhores atrizes do nosso pornô?
Considero boas atrizes a Márcia Ferro, a Eliana na época que ela fazia, a Andrea Pucci, que é argentina, e a Sandra Midori.

A Malu Bailo já trabalhou em teatros eróticos, mas nega que fizesse sexo explícito, que era tudo simulação. É verdade?
Prefiro não falar (risos).

E esse pessoal antigo, tem como entrar em contato com algum deles?
O Oásis (Minitti) eu sei que está com uma casa de shows na Avenida São Jorge, onde era o Primo Saci, parece... A Sandra Midori casou e parou. A Márcia Ferro parou com tudo depois da morte do marido (Osvaldo Cirilo, que ela nega ter sido esposa dele). Andrea Pucci também parou. Porque o pessoal envelhece, né? Principalmente a mulher. Então, elas param.

Você está com que idade?
Farei 40 anos em maio.

14.11.09

O horror de Fauzi Mansur

Depois de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, Fauzi Mansur foi um dos cineastas brasileiros que voltaram sua atenção ao gênero horror (na foto ao lado, de propriedade da revista Quem e tirada no ano passado, Mansur aparece entre as atrizes Nívea Stelmann e Bárbara Borges). Por esse motivo, o 4º Festival Curta Fantástico, o CineFantasy, realiza amanhã uma sessão especial para homenagear Mansur, um dos diretores que mais realizou filmes na Boca do Lixo de São Paulo. Serão exibidos três filmes do diretor e produtor, a partir das 15h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na Rua Álvares Penteado, 112, Sé, região central de São Paulo.

Belas e Corrompidas (1977): Uma bela mulher começa a praticar assassinatos em série inspirada no caso de Landru, um serial-killer francês, com a ajuda de sua capacha horrível e corcunda, levam as vítimas a beira da loucura misturando sadismo, erotismo e morbidez gótica ritualística, logo passam a ser alvo de perseguição policia devido aos excêntricos eventos. Este filme contém cenas chocantes. Com Eudósia Acuña, Carmem Angélica, Carlos Bucka, Maria Isabel de Lizandra, Valéria D'Ellia, Paulo Domingues, Abrahão Farc, Márcia Fraga, Edward Freund, Heitor Gaiotti, Ênio Gonçalves, Stella Maia, Érika Maracini, Marthus Mathias.

Ritual Macabro (1990): Raro e valioso livro contendo informações sobre antigos rituais indígenas de pajelança é roubado por integrantes de grupo de teatro. Eles planejam encenar uma peça baseada nos textos, mas durante os ensaios um dos atores é possuído e começa a matar os demais, enquanto seu corpo se deteriora. Com Olair Coan, Carina Palatinik.

Atração Satânica (1990): Num balneário no estado do Rio de Janeiro, a radialista Fernanda apresenta seu programa com histórias de um assassino que extrai o sangue de suas vítimas, todas mulheres, para ressuscitar sua irmã morta. O que Fernanda não sabe é que sua história está realmente acontecendo, e tais assassinatos têm origem num culto de magia negra realizado 14 anos atrás, em que um casal de crianças foi entregue ao demônio. Enquanto tem um caso com o oficial de Marinha Lionel, Fernanda continua com seu programa, e as novas mortes levam a polícia a torná-la suspeita. Com Gabriela Toscano, Ênio Gonçalves, Emília Maser, André Loureiro, Olair Coan, Cláudia Alencar, Cláudio Curi, Antoine Rovis, Vera Zimmerman.

2.11.09

Entrevista histórica 3: Walter Gabarron

Mondo Cane publica hoje a terceira parte da entrevista com o ator Walter Gabarron, um dos mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Veja também a primeira e a segunda partes do bate-papo entre Gabarron e o escriba deste blog.

Você tem algum fato marcante ao longo de sua carreira que gostaria de comentar?
Em cinema o que eu posso dizer é que só não fui passivo. Já fiz cena com travesti, com homem, com mulher. Então eu já fiz de tudo. Tudo o que você possa imaginar. Sexo eu já fiz praticamente tudo. Só não dei o..., né, porque o resto...

A visão de uma pessoa que faz sexo profissionalmente muda em relação ao sexo na vida pessoal dela? Fazer sexo torna-se uma coisa sem graça?
Acaba. Você não vê mais graça em nada. Uma pessoa "normal" automaticamente se excita quando vê uma mulher nua, uma coisa natural. Para mim, ver uma mulher nua, às vezes é como não estar vendo nada. A menos que seja uma coisa que eu não vi na vida. E é difícil. Todas (as mulheres) são iguais.

E depende da circunstância também.
O cara paga e entra no teatro. Quando vê a menina pelada, ele já está excitado. No meu caso não, é preciso muito mais para isso. Você fica muito frio. Não só o homem, como a mulher. A mulher que faz sexo explícito se torna muito fria. Ela coloca outros valores, o sexo fica em 10º plano.

Você tem filhos?
Um casal. Minha filha vai fazer 18 anos e o menino, 16 (hoje, os filhos de Walter são 12 anos mais velhos).

Você continua casado com a Eliana?
Estou desquitado, separação consensual. Mas a gente se dá super bem. Moro com meus filhos. Eles hoje não aceitam mais que eu faça (sexo explícito). Mas o que está feito, está feito. Eles não gostam quando estão comigo na rua e de repente alguém me reconhece. Eles ficam meio constrangidos. Outro dia passei com meu filho na Avenida Ipiranga (Centro de São Paulo) e tinha dois gays lá, que disseram: "Olha o carinha do cinema. Gostoso! Pauzudo!". Sabe aquela coisa bem de viado? E o X. (diz o nome do filho) do lado, ele ficou super sem graça. A X. (diz o nome da filha) nem fala, ela não gosta nem que o namorado saiba. Outro dia em casa, ele estava lá e passei um filme meu, não pornô, para ele ver. Depois que ele foi embora, a X. chamou minha atenção porque ela não quer que ele saiba que eu sou deste meio. É um preconceito por parte dela. O X. já nem tanto. Mas ela não gosta nem um pouco.

Talvez por ele ser homem.
Acho que sim, porque ele está doido para fazer 18 anos e vir aqui (no Teatro Orion).

Soube por meio de uma coluna do Arnaldo Jabor que a sua ex-esposa virou religiosa.
Saiu na coluna do jornal falando a respeito dela quando fez o filme Cléopatra. E depois, essa mesma citação é publicada no livro dele. Ela parou mesmo, virou Testemunha de Jeová, não quer nem saber disso. Aliás, ela tem nojo disso.

Faz tempo que ela se converteu?
Foi nas filmagens de Cléopatra. Exatamente 11 anos (essa entrevista com Gabarron é de 1997).

E há quanto tempo vocês estão separados?
Faz um mês hoje (não lembro o mês da entrevista, mas foi no primeiro semestre de 1997). Legalmente foi agora, um mês atrás.

E mesmo com ela tendo se convertido há muito tempo atrás, você continuou atuando no meio pornô.
A gente ficou esse tempo junto tentando. Eu tentando entender a religião dela, que eu não entendo até hoje e ela tentando entender o porquê de eu ter continuado. Ela queria que eu me convertesse ou pelo menos que eu largasse disso, partisse para outra. Mas é difícil. Se a gente tivesse uma situação melhor de trabalho, ainda dava. Mas é difícil.

(Continua)

30.10.09

Sobre loira e lobos

Os jornais de hoje repercutem a história da loira que foi chamada de puta e ameaçada por centenas de alunos dentro da Universidade Bandeirantes (Uniban), campus São Bernardo, no ABC, Grande São Paulo, porque estava usando um microvestido. Mas o fato foi divulgado dois dias antes pelo blog do mano Fausto, responsável também pela melhor análise do caso, conforme observou o jornalista Marcelo Soares em seu blog.

Para quem saiu do planeta e não sabe do que estamos falando, segue abaixo a matéria "Taleban na faculdade" (ótimo título), publicada hoje na Folha de S.Paulo. Notem que foi um bando de recalcadas quem deu início à confusão ao intimidar a voluptuosa loira no banheiro. Para a vítima, o grupo de garotas agiu por inveja e incitou os garotos a participarem da balbúrdia. Admira saber que as formas da loira também tenham causado tanta repulsa aos rapazes da faculdade. Por isso, esses caras já foram batizados de "unibambis" em alguns fóruns na internet.

Taleban na faculdade
Em universidade de São Bernardo, multidão de alunos persegue colega de microvestido, que só consegue sair escoltada pela PM

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

MARLENE BERGAMO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICA

Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22).
Michele Vedras (nome fictício inventado por ela em um blog) só conseguiu sair da escola sob escolta de cinco soldados da PM, duas mulheres inclusive, que tiveram de usar spray de pimenta para conter os mais exaltados e abrir caminho entre a massa. Vídeos do ataque circulam pela rede, um deles intitulado "A Puta da Uniban".
O microvestido rosa-choque de Michele, naquele dia, andou de ônibus -no total, a moça gasta duas horas para ir e voltar da faculdade. Mereceu elogios -"Gostosa!"- durante o trajeto. O mesmo vestido foi usado na festa de aniversário da sobrinha de Michele, uma festinha em família. Mas, na Uniban, onde a moça chegou às 19h45, o tempo esquentou.
Estudantes de outros cursos que não os de turismo, entrevistados pela Folha anteontem, criticaram Michele. "Ela veio provocar." "Ela andava rebolando." "Deixou cair uma carteira, de propósito, só para ter de se agachar." "Aquilo não é roupa de vir à faculdade."
Estudantes do curso de turismo ouvidos pela Folha defenderam a colega. "Ela sempre anda assim, de um jeito ousado." "Ela faz esse estilo mulherão mesmo." "Ela é avantajada, sim. Mulheres com a autoestima lá embaixo morrem de inveja." "É uma vergonha para a escola ter alunos assim. Parece que esses caras nunca viram uma mulher."
Desfile na rampa
O prédio da faculdade de turismo tem um átrio central cercado de rampas por todos os lados. Quando Michele chegou à escola e começou a subir uma rampa, os rapazes ficaram paralisados. Alguns conseguiram se mexer. Mas para ir ao prédio vizinho, chamar colegas para ver também. A pequena multidão, até aí, tinha cerca de 200 pessoas, segundo um estudante. Muitos assobiavam.
Michele achou melhor sair da rampa no segundo andar e usar a escada para chegar ao terceiro, onde fica a classe dela.
As aulas começaram. Às 20h30, a jovem resolveu ir ao banheiro. Uma colega de classe fez questão de acompanhá-la, receando algum problema. "Eu estava com receio, mas nem podia imaginar o que viria daí para frente", disse Kelly Andrezzi dos Santos, 19. De repente, algo como 20 garotas de outros cursos invadiram o banheiro. Queriam obrigar Michele a vestir uma calça, xingavam-na, diziam que ela estava provocando, "causando".
A confusão foi a senha. Rapazes saíam de suas salas e se aglomeravam na porta do banheiro das mulheres. O professor Rubens, de Desenvolvimento Gerencial, que dava aula para a classe de Michele, teve de sair da sala em operação de resgate. Foi acompanhado por colegas de turma.
"A gente teve de distribuir tapas nas mãos dos meninos, que tentavam enfiar o aparelho celular no meio das pernas [da Michele], para tirar fotos", lembra a amiga Amanda de Sousa Augusto, 19, aluna da mesma classe. "Foi uma agressão, uma injustiça. A Michele é uma superboa pessoa."
A turma do professor Rubens voltou para a sala e se trancou nela. A essa altura, a maioria dos garotos dos dois prédios da Uniban já tinha saído de suas classes. Eles revezavam-se no visor da porta, pulavam para alcançar uma janela mais alta.
O coordenador de curso subiu até a classe sitiada. Pediu que Michele fosse embora. Que ela vestisse o jaleco dele ao sair. E foi-se. Michele não quis sair.
O namorado ia buscá-la no fim do período de aulas -iriam juntos a uma festa.
Presos na sala de aula, a turma e o professor ouviam os estudantes lá fora gritando. "Solta ela, professor! Deixa pra nós." "Vamos estuprar!" Colegas de classe colaram folhas de fichário por dentro da janela, para evitar os olhares.
A essa altura, Michele chorava, desmanchando a maquiagem. Um chute na porta, a maçaneta voou. Machucou o professor. Três seguranças se apresentaram na sala. O mais graduado dirigiu-se à moça: "Bonito, né... Vir à faculdade dessa maneira". Ele queria que Michele saísse naquele momento, mas a representante de classe não permitiu. Achava que a colega corria risco. Chamou o 190.
"Seus coxinhas [PMs], vão levar a gostosa?", um aluno uivou no ouvido de A., um dos policiais que atendeu ao chamado.
Quando Michele passou, escoltada, na frente da sala dos professores, uma docente fez questão de sair. Com uma careta, perguntou: "É essa a fulana?".
Na catraca da escola, sempre sob a escolta policial, Michele viu entre os que a agrediam uma menina com o celular na mão, fotografando a sua vergonha: "Ela pega o ônibus comigo todo dia. Sempre quietinha.
Mas naquele dia, ela atacava irada: pu-ta, pu-ta. Não entendi por que tanta raiva".
Filha de uma dona de casa e de um supervisor de serviços, ambos apenas o primário completo, Michele tem um irmão de 32 e duas irmãs (30 e 16). O pai é quem paga os R$ 310 de mensalidade. Mora em um bairro popular em Diadema. Já trabalhou em um mercadinho.
Michele não pretende abandonar a faculdade. Hoje, ela comparece pela primeira vez à Uniban, desde o episódio, para depor em uma sindicância que apura o ocorrido. A jovem tem ficado reclusa. "Sempre ando arrumada, salto alto e maquiada. É assim que me vejo. É assim que eu sou. Mas, desde aquela quinta-feira, não consigo mais ser quem eu era. Só me visto de calça e camiseta e a maquiagem ficou na gaveta", disse.

27.10.09

Atriz global defende pornochanchadas

Os diálogos escassos podem dar a falsa impressão de que Yolanda, mãe de Ariane (Christine Fernandes), é novata em novelas. Ledo engano. A intérprete da personagem da novela "Viver a Vida" é Sandra Barsotti, protagonista de sucessos na TV na década de 70, e que, surpreendentemente, ficou 33 anos afastada do horário nobre.

"Manter-se na TV depende de muita disposição. É um tal de ligar para diretor, ligar para autor...", justifica a atriz, que assumiu a personagem a convite do produtor de elenco Luiz Antonio Rocha. "Ele trabalhava na Record quando me chamou para trabalhar lá. Só não pude aceitar porque movia um processo contra a emissora", afirma, referindo-se à ação por uso indevido de imagem que ainda corre na Justiça.

Segundo Sandra , o programa "Fala que eu te escuto", da Igreja Universal, utilizou-se de cenas suas na novela "Velas de sangue" (Record, 1997) para tratar sobre exorcismo. "Não me arrependi. O que eles fizeram foi um desrespeito". Sandra admite que esse temperamento pode ter prejudicado sua carreira. Por conta disso, fez alguns "inimigos".

Walter Avancini, diretor morto em 2001, foi um deles. "Trabalhava em Portugal quando ele me convidou para fazer uma novela na Tupi. Me convenceu a voltar ao oferecer um salário três vezes maior do que eu ganhava quando havia deixado o país. Só omitiu que a inflação tinha camuflado esse aumento. Fiquei possessa".

Aos 57 anos, Sandra defende as pornochanchadas, gênero que a lançou ao estrelato. Foi pelo sucesso dela em filmes do tipo que foi chamada para estrelar "O Casarão" (1976), clássico da teledramaturgia brasileira. "Hoje qualquer novela das seis tem cenas mais pesadas", compara a atriz, que nota certa diferença na maneira como se faz TV hoje. "É engraçado como os jovens cumprem um ritual para entrar em cena. Fazem treino de voz, vários exercícios... Antes era tudo mais simples", diverte-se.

(Matéria de Juliana Alencar publicada no jornal Diário de S.Paulo em 20/10/2009)

Clique aqui para conferir a filmografia de Sandra Barsotti e aqui para ver um blog dedicado à atriz.

1.8.09

Entrevista histórica 2: Walter Gabarron

Mondo Cane publica hoje a segunda parte da entrevista com o ator Walter Gabarron, um dos mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Na foto ao lado, Gabarron aparece entre as atrizes Paula Sanches (à esquerda) e Cláudia Wonder, no filme "Sexo dos Anormais", dirigido em 1984 por Alfredo Sternheim.

Como sua família reagiu quando você começou a fazer filmes pornô? Teve algum problema?
Da família exatamente não. Porque eu sou órfão de pai e mãe. Então eu considero família pai e mãe. Fui criado separado dos meus irmãos. Mas quando saiu em 84 uma matéria sobre mim no jornal, acho que foi a primeira colorida do NP (Notícias Populares): "Marido e esposa ganham a vida fazendo sexo". Eu atuava com minha mulher (no cinema). E a matéria saiu bem grande. Foi um choque. Meus tios ficaram furiosos. No dia que saiu a matéria, eu fui para o interior, onde eles (tios) moram. Cheguei lá, tinha uma festa. Cheguei e eu não sabia se entrava ou se voltava pra rodoviária, porque a recepção foi péssima. Eu tenho uma tia que é freira. Ela foi quem quebrou o gelo, "vamos entrando", tal. Entrei e então entendi a situação. Este jornal estava bem na mesinha. Aí deles eles foram entendendo. Passaram a entender que era um trabalho artístico, que era uma coisa profissional.

Onde você nasceu?
São Paulo.

Mas a família é do interior?
Interior de Jaú. Eu fui criado lá. Fui criado em Jaú até os 12 anos. Depois que eu vim para São Paulo para morar com meu pai, pois a minha avó, que me criava, morreu. Quando fiz 14 anos, meu pai morreu. Aí eu caí no mundo, fiquei sozinho. Nunca dei muita importância pro lado de família não.

Trabalhar com teatro (infantil) foi seu primeiro emprego?
Não. Antes disso fiz um curso no Senai, me formei em eletricidade. Fui secretário, um monte de coisa.

Mas chegou a exercer a profissão?
Não sei nem instalar uma lâmpada hoje.

Ficou só no curso mesmo.
Só no curso. Não gostava, eu fiz exatamente por causa deste negócio de família: "não, tem que ter uma profissão". Aí eu fui e fiz. Me formei, só que o diploma está enfiado em uma gaveta não sei onde.

As pessoas que trabalham pela primeira vez numa peça pornô chegam com algum bloqueio pra desenvolver o papel? Como é que você faz para quebrar esse bloqueio deles? (Nota de Mondo Cane: na época, Walter Gabarron coordenava as apresentações no Teatro Orion)
Bem, a inibição pra teatro... Principalmente para fazer uma cena de sexo no teatro ao vivo, o cara leva, se ele nunca fez nada, uma semana (pra perder a inibição). E mesmo assim, às vezes não consegue, desiste.

Aí você vai fazendo ensaios com ele até botar ao vivo...
O ensaio é feito em cena mesmo, com o público, porque não tem como (ser o contrário). De repente o cara consegue (fazer sexo) sem ninguém (olhando), mas quando ele vê 10 pessoas na platéia não consegue.

No teatro, para a mulher o trabalho é mais fácil, sendo que o homem tem a obrigatoriedade de ter uma ereção...
O homem é o seguinte: ou sobe ou não sobe.

Se não subir, como é que faz na hora? Como que improvisa?
Neste caso eu tenho bastante experiência. Então eu tinha (para escolher) todas as posições na época que eu fazia (peças pornôs). São 20, 30 posições. Dentre elas eu escolho aquela que não mostra (o órgão penetrando). Eu faço um simulado muito bem feito e às vezes o pessoal não percebe. Agora quem não tem a manha é vaiado, é brocha daqui, brocha dali. E acontece, porque tem hora que você tá com dor de cabeça, não tá legal, você não está bem, o pau não sobe mesmo. Quanto mais a menina chupa, mais ele cai, entendeu? Aí o cara é vaiado mesmo.

(Continua)
Veja a primeira parte aqui.